Lívia do Carmo Silva – Bióloga, Doutora em Genética e Biologia Molecular
Por que algumas pessoas ganham músculo com facilidade enquanto outras passam
meses treinando sem ver grandes mudanças? Por que alguns parecem “nascidos para
correr” e outros têm explosão natural para saltar, acelerar ou levantar peso? Essas
diferenças, que por muito tempo foram atribuídas ao acaso ou à força de vontade, hoje
têm uma explicação muito mais concreta: o DNA influencia profundamente como cada
corpo responde ao exercício. Estudos mostram que 40% a 60% da variação na adaptação
ao treino tem base genética, afetando força, resistência, queima de gordura e até o risco
de lesões.
Um dos exemplos mais conhecidos é o gene ACTN3, frequentemente chamado
de “gene da potência”. Pesquisas de Harvard e do Instituto Karolinska demonstram que
pessoas que não produzem a proteína ACTN3 têm menor explosão muscular e um perfil
mais voltado à resistência, como se o músculo “preferisse” atividades contínuas em vez
de força rápida. Já variantes em genes como ACE e PPARGC1A modulam eficiência
cardiovascular, adaptação mitocondrial e a capacidade de usar lipídios como combustível.
Somadas, essas diferenças explicam por que certos indivíduos respondem melhor a
treinos de força, enquanto outros evoluem mais rápido no aeróbico.
Mas os efeitos dessas variantes vão além do desempenho. Elas
influenciam inflamação pós-treino, velocidade de recuperação, tolerância ao esforço,
tendência ao overtraining, apetite após exercício e até a qualidade do sono. Isso significa
que um protocolo de alta intensidade pode ser transformador para algumas pessoas, e
completamente inadequado para outras, que acumulam dor, fadiga constante e pouco
progresso.
Com esse avanço no conhecimento, cresce a adoção de testes genéticos aplicados
ao esporte e à nutrição, hoje utilizados para orientar treinos personalizados. Clínicas
esportivas, nutricionistas e fisiologistas já incorporam painéis genéticos que avaliam
dezenas de genes ligados à composição corporal, risco de lesões, resposta ao treinamento
de força, capacidade aeróbica, metabolismo de carboidratos e lipídios, resposta
inflamatória e recuperação muscular. Na prática, eles ajudam a personalizar treinos e
dietas com um nível de precisão que era inimaginável há alguns anos.
A grande lição dessa nova fase é simples: cada corpo é único. Entender como os
genes moldam o metabolismo e o desempenho permite treinar com mais eficiência, evitar
frustrações e otimizar resultados. Não se trata de separar “geneticamente privilegiados”,
mas de permitir que cada pessoa descubra o treino ideal para o seu próprio código
biológico.
Afinal, a ciência está deixando claro: não existe exercício perfeito, existe o
exercício perfeito para você.