Em um momento em que a gestão eficiente dos recursos em saúde se torna cada vez mais necessária, a atuação do farmacêutico hospitalar ganha destaque como elemento estratégico para garantir sustentabilidade, segurança do paciente e qualidade assistencial. No Hospital São Silvestre, um projeto de farmacoeconomia aplicado à prática cirúrgica comprova, na prática, como o conhecimento técnico aliado à gestão pode transformar realidades.
À frente da iniciativa está a farmacêutica Maria Viviany de Morais Claudino, profissional com 33 anos de formação e 28 anos dedicados à farmácia hospitalar. Sua trajetória começou em 1995, em Cristalândia (TO), onde teve a primeira oportunidade na área hospitalar — experiência que definiu sua escolha profissional e a motivou a investir continuamente em estudos, atualizações e especializações.
Ao longo de sua carreira, a farmacoeconomia tornou-se uma ferramenta essencial em sua atuação. Para a farmacêutica, trata-se de um campo que vai muito além da redução de custos, pois sustenta decisões técnicas baseadas no equilíbrio entre custo, eficácia e segurança, promovendo o uso racional de medicamentos, a padronização e a qualificação da assistência.
Reestruturação da farmácia e identificação de oportunidades
Em dezembro de 2025, Maria Viviany passou a integrar a equipe do Hospital São Silvestre após convite da Diretoria Administrativa para atuar na reestruturação da farmácia hospitalar. O trabalho teve início com um diagnóstico detalhado do setor, avaliando estrutura organizacional, área física, procedimentos operacionais padrão e recursos humanos, com foco especial em treinamento e orientação das equipes.
Durante esse levantamento, foi identificado que o processo de dispensação do Centro Cirúrgico representava uma oportunidade estratégica para melhoria dos fluxos, redução de perdas financeiras e aumento da rastreabilidade dos materiais e medicamentos utilizados nos procedimentos.
A implantação dos kits cirúrgicos padronizados
Após a reorganização da Farmácia Central, teve início o desenvolvimento de um novo modelo de dispensação para o Centro Cirúrgico. O projeto foi construído de forma integrada, envolvendo profissionais da farmácia, enfermagem, corpo clínico e alta gestão, todos alinhados ao mesmo objetivo: gerar economia institucional sem comprometer a segurança do paciente.
Foram definidos kits cirúrgicos padronizados por especialidade, como neurologia, ginecologia, urologia e cirurgia geral, contendo os materiais e medicamentos de uso rotineiro para cada tipo de procedimento. Além disso, foi criada uma caixa padrão, comum a todas as cirurgias, com itens essenciais. Todo o conteúdo passou por avaliação dos cirurgiões, com ajustes realizados conforme as necessidades específicas de cada especialidade.
O processo de planejamento e estruturação dos kits levou cerca de quatro meses, incluindo a escolha de caixas funcionais, práticas e compatíveis com o orçamento da instituição.
O início do projeto e os primeiros resultados
A implantação oficial ocorreu em 03 de agosto de 2025. A partir dessa data, a farmácia do Centro Cirúrgico foi desativada, e o atendimento passou a ser realizado exclusivamente por meio dos kits cirúrgicos, conforme o mapa cirúrgico diário. Insumos não contemplados nos kits ou solicitados como extras passaram a ser dispensados pela Farmácia Central, garantindo maior controle e rastreabilidade vinculada a cada procedimento.
Apesar do impacto inicial, comum em processos de mudança, o modelo foi rapidamente assimilado pelas equipes. Ajustes foram realizados nos primeiros dias, com participação ativa de cirurgiões e anestesistas, até a consolidação do fluxo.
Os resultados foram expressivos já no primeiro mês, com uma economia aproximada de R$ 30 mil. Após seis meses de implantação, uma avaliação baseada em indicadores de consumo, auditorias internas e inventários apontou uma economia acumulada de cerca de R$ 160 mil.
Farmácia hospitalar como área estratégica
Para a Diretoria Administrativa do hospital, representada por Thiago Monteiro, o projeto consolidou a farmácia hospitalar como uma área estratégica dentro da gestão em saúde. Além da expressiva redução de custos, a iniciativa promoveu maior organização logística, padronização de processos e previsibilidade no consumo de materiais e medicamentos, sem prejuízo à qualidade assistencial.
O projeto evidencia que a atuação do farmacêutico vai além da dispensação de medicamentos, contribuindo diretamente para a eficiência operacional, a tomada de decisões baseadas em dados e a segurança do paciente.
Desafios, futuro e impacto no SUS
A experiência também reforça que a implementação da farmacoeconomia no ambiente hospitalar envolve desafios, como limitações de sistemas de informação, necessidade de dados confiáveis, resistência a mudanças e demanda por capacitação técnica. Ainda assim, o planejamento, o trabalho multiprofissional e o apoio institucional mostram-se fundamentais para o sucesso das iniciativas.
Para 2026, novos projetos já estão previstos no Hospital São Silvestre, com foco na ampliação das práticas de farmacoeconomia, sempre alinhadas à segurança do paciente e à qualidade assistencial.
No contexto do Sistema Único de Saúde, iniciativas como essa demonstram o potencial da farmacoeconomia para reduzir desperdícios, otimizar recursos e ampliar o acesso da população a uma assistência segura e de qualidade, fortalecendo também a valorização da atuação farmacêutica no Brasil.
Reconhecimento e trabalho em equipe
Maria Viviany destaca que os resultados alcançados são fruto do trabalho coletivo e do apoio institucional, reconhecendo a participação da Diretoria Administrativa, da Coordenação do Centro Cirúrgico, da equipe de enfermagem e dos colaboradores da farmácia hospitalar.