Moderna conquista aprovação da primeira vacina de mRNA contra influenza: avanço pode transformar a prevenção da gripe
A aprovação da mFlusiva®, desenvolvida pela Moderna, pela Food and Drug Administration (FDA) dos Estados Unidos representa um dos acontecimentos científicos mais importantes de 2026. Pela primeira vez, uma vacina baseada em RNA mensageiro (mRNA) foi autorizada para prevenir a influenza sazonal, ampliando o uso da tecnologia que revolucionou a imunização durante a pandemia de COVID-19.
O avanço inaugura uma nova etapa no desenvolvimento de vacinas respiratórias e pode permitir respostas mais rápidas às constantes mutações do vírus influenza, um dos principais desafios para os programas mundiais de vacinação.
O que muda com a aprovação da vacina da Moderna?
A vacina mFlusiva® recebeu aprovação da FDA para adultos entre 50 e 64 anos. Para indivíduos com 65 anos ou mais, a agência concedeu aprovação acelerada, condicionada à realização de estudos adicionais para confirmação do benefício clínico nessa população.
Essa decisão representa muito mais do que a autorização de um novo imunizante. Ela valida definitivamente a plataforma de RNA mensageiro como uma tecnologia capaz de combater diferentes doenças infecciosas além da COVID-19.
Segundo especialistas, essa aprovação abre caminho para futuras vacinas contra vírus respiratórios emergentes e para imunizantes combinados que poderão proteger simultaneamente contra gripe, COVID-19 e vírus sincicial respiratório (VSR).
Como funciona uma vacina de RNA mensageiro?
As vacinas tradicionais contra influenza utilizam vírus cultivados em ovos embrionados ou culturas celulares para estimular a resposta imunológica.
A tecnologia de RNA mensageiro (mRNA) utiliza uma estratégia diferente.
Em vez de aplicar partes do vírus, a vacina entrega ao organismo uma molécula sintética de RNA contendo as instruções para que as próprias células produzam temporariamente uma proteína viral conhecida como hemaglutinina (HA), principal alvo do sistema imunológico.
Ao reconhecer essa proteína, o organismo desencadeia uma resposta imunológica completa, produzindo anticorpos e ativando células de defesa capazes de reconhecer futuras infecções.
É importante destacar que o RNA mensageiro não entra no núcleo celular, não modifica o DNA humano e é naturalmente degradado poucas horas após cumprir sua função.
Essa tecnologia permite desenvolver novas formulações em poucas semanas, reduzindo significativamente o tempo necessário para adaptar as vacinas às variantes predominantes da gripe.
Estudo clínico envolveu mais de 40 mil participantes
A aprovação da FDA foi baseada em um dos maiores estudos clínicos já realizados para vacinas contra influenza.
O ensaio de fase III incluiu mais de 40 mil voluntários com idade igual ou superior a 50 anos, distribuídos em diversos países.
Os principais resultados foram bastante expressivos:
- 26,6% maior eficácia na prevenção da influenza sintomática em comparação com uma vacina convencional;
- resposta imunológica superior em adultos idosos;
- excelente perfil de segurança;
- eventos adversos predominantemente leves, como dor no local da aplicação, fadiga, cefaleia e dores musculares.
Para pacientes acima de 65 anos, a Moderna deverá acompanhar aproximadamente 800 mil indivíduos em estudos de efetividade após a comercialização.
Por que essa aprovação é considerada histórica?
A produção tradicional das vacinas contra gripe leva aproximadamente seis meses.
Durante esse período, novas variantes podem surgir e reduzir a compatibilidade entre a vacina produzida e os vírus que efetivamente circulam durante a temporada.
A plataforma de RNA mensageiro reduz esse problema porque permite:
- atualização muito mais rápida das cepas vacinais;
- produção independente de ovos embrionados;
- maior flexibilidade industrial;
- resposta mais ágil diante de novas variantes;
- possibilidade de fabricar vacinas multivalentes.
Especialistas consideram que esse é um dos maiores avanços tecnológicos na área de imunização desde o início da pandemia de COVID-19.
O futuro das vacinas poderá ser combinado
A Moderna já desenvolve novas plataformas capazes de reunir diversos imunizantes em uma única aplicação.
Entre os projetos em andamento estão vacinas que poderão proteger simultaneamente contra:
- Influenza;
- COVID-19;
- Vírus Sincicial Respiratório (VSR).
Essa estratégia poderá facilitar campanhas anuais de vacinação, reduzir o número de aplicações necessárias e aumentar a adesão da população.
Além disso, plataformas semelhantes poderão ser rapidamente adaptadas para enfrentar futuras pandemias.
Impacto para a saúde pública mundial
A influenza continua sendo uma das doenças respiratórias mais importantes do planeta.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a gripe sazonal provoca entre 3 e 5 milhões de casos graves e até 650 mil mortes relacionadas a complicações respiratórias todos os anos.
Uma vacina que possa ser atualizada com maior rapidez aumenta significativamente a possibilidade de corresponder às variantes circulantes, tornando a proteção populacional mais eficiente.
Especialistas acreditam que essa tecnologia poderá reduzir:
- hospitalizações;
- complicações respiratórias;
- mortalidade em idosos;
- sobrecarga dos sistemas de saúde durante os períodos de maior circulação viral.
Quando a vacina poderá chegar ao Brasil?
Até o momento, a autorização foi concedida apenas pela FDA.
Para que a vacina esteja disponível no Brasil, será necessário que a Moderna apresente um dossiê completo à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA).
O órgão brasileiro deverá analisar:
- eficácia clínica;
- perfil de segurança;
- qualidade de fabricação;
- estabilidade do produto;
- impacto epidemiológico.
Somente após essa avaliação será possível discutir uma eventual incorporação ao Programa Nacional de Imunizações (PNI).
Perspectivas para a pesquisa científica
A aprovação da mFlusiva consolida definitivamente a tecnologia de RNA mensageiro como uma das plataformas mais promissoras da medicina moderna.
Pesquisadores já estudam aplicações semelhantes para:
- vírus respiratórios emergentes;
- HIV;
- citomegalovírus;
- vírus Epstein-Barr;
- alguns tipos de câncer;
- doenças raras.
O sucesso da vacina contra influenza poderá acelerar investimentos em novas terapias baseadas em RNA e ampliar significativamente o desenvolvimento de medicamentos personalizados.
Conclusão
A aprovação da primeira vacina de RNA mensageiro contra influenza representa um marco para a ciência e para a saúde pública mundial.
Mais do que uma nova vacina, trata-se da consolidação de uma tecnologia capaz de transformar a forma como doenças infecciosas serão prevenidas nas próximas décadas.
Ao permitir atualização mais rápida das formulações, maior flexibilidade na produção e potencial para vacinas combinadas, a plataforma de mRNA reforça seu papel como uma das principais inovações da biotecnologia contemporânea.
Embora ainda sejam necessários novos estudos em populações específicas e futuras avaliações por outras agências regulatórias, especialistas consideram que este é apenas o início de uma nova geração de imunizantes.
Referências científicas
- Reuters. US FDA approves first mRNA flu shot from Moderna. Publicado em 6 de agosto de 2026.
- Reuters. Moderna’s mRNA flu vaccine outperforms standard shot in late-stage trial. Maio de 2026.
- Reuters. Moderna’s mRNA flu vaccine backed by FDA advisers. Junho de 2026.
- The Wall Street Journal. FDA Approves First mRNA Flu Vaccine in Win for Moderna. Agosto de 2026.
- Organização Mundial da Saúde (WHO). Influenza (Seasonal). https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/influenza-(seasonal)